play~dead

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tenho de parar de vir aqui para enterrar os mortos. ou só para enterrar os mortos. hoje é o dia do teu aniversário, o dia do teu aniversário de casamento e o dia em que soube em que a partir de agora seremos apenas ausência e memórias dentro de mim. foi como disse ao m., sinto que estou a perder a minha infância. a partir de agora, prometo-te que usarei ainda com mais orgulho a minha trapalhice, a nossa trapalhice, aquela que dizem teres sido tu a passares-me.
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(no subject)

"but that's also how i felt in highschool, sure that my people were from elsewhere and going elsewhere and that they would recognize me when they saw me. they would like me enough that it wouldn't matter if i liked myself. so would see the good in me so that i could, too."
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(no subject)

agora que penso, não me lembro do nome do senhor. lembro-me do medo que lhe tinha, em pequena, como se fosse dele a culpa pelas agulhas e por todas as injecções que o meu pediatra receitou durante toda a minha infância. embora esteja certa que um dia lhe tenha sabido o nome, muito provavelmente o apelido, entre nós chamavamos-lhe "o enfermeiro". o enfermeiro do bairro, que ainda hoje mora no prédio em frente, a quem eu fazia má cara e de quem fugia mal ouvia o som produzido pelo elevador acabado de accionar. que me ouvia chorar e berrar mais por sistema do que por dor. o enfermeiro do bairro, que me viu crescer, e a quem eu fui vendo envelhecer até se tornar num vulto, entre todos os vizinhos a quem nem sequer se fala, com quem se partilha o espaço de fechada à saída dos transportes públicos, de regresso a casa. hoje estava um homem estendido no chão, com a cabeça pousada numa almofada que alguém lhe trouxera, logo a seguir às escadas de que tombara, agarrado à mulher, que sangrava por todos os lados, agarrada a um lenço branco. quatro pisos acima, por entre os vizinhos que se aglomeravam e prestavam ajuda, a minha mãe lá o acabou por reconhecer o senhor enfermeiro. o temido senhor enfermeiro, hoje uma memória distante e simpática da minha infância, e do tempo que eu passei nesta casa com os meus avós, que num esfregar de olhos que corresponderão alguns anos quase se apagou, graças à velhice e à doença, foi-se embora de ambulância, deitado numa maca, agarrado às mãos da mulher.